
Uma farsa genial que desnuda a hipocrisia social com a acidez inconfundível de Nelson Rodrigues.
Em "Viúva, Porém Honesta", Nelson Rodrigues nos presenteia com uma de suas mais afiadas "farsas irresponsáveis", uma obra que transborda a genialidade provocadora e a crítica social implacável do autor. A trama se desenrola em torno de J.B. de Albuquerque, um inescrupuloso magnata da imprensa, que se vê diante de um dilema peculiar: sua filha Lucy, após a morte do marido, o crítico de teatro Dorothy Dalton, decide que nunca mais se sentará. Para resolver essa bizarra condição, J.B. convoca uma reunião extraordinária, reunindo um médico, um psicanalista, uma cafetina e, surpreendentemente, até o Diabo.
Nesta peça mordaz, Rodrigues tece uma crítica feroz à hipocrisia da sociedade burguesa e às instituições da época, usando o palco como um campo de batalha contra a crítica teatral, a medicina e a psicanálise. Lucy, que de esposa adúltera se transforma em uma viúva "honesta" com um luto excêntrico, e Dorothy Dalton, um delinquente juvenil forçado a um casamento arranjado apesar de sua homossexualidade, são personagens que expõem as fissuras e os absurdos das convenções sociais.
A obra não é apenas um ataque frontal, mas também um laboratório para os tipos rodriguianos que se tornariam icônicos em trabalhos futuros. O Dr. J.B. de Albuquerque, por exemplo, é um precursor do Dr. Werneck de "Bonitinha, mas Ordinária", e a tia solteirona que anseia por 3.500 amantes reapareceria em "Toda Nudez Será Castigada". Uma experiência teatral que desafia, diverte e perturba, revelando a alma complexa e muitas vezes grotesca da sociedade brasileira.
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