
Uma reflexão atemporal sobre a velhice e a complexidade da vida em sociedade. - O Estado de S. Paulo
Partidas Dobradas, de Mário Donato, é um romance profundo que mergulha na vida de Hermano da Silva, um guarda-livros cuja existência é meticulosamente pautada pelos princípios contábeis do "Débito e Crédito". Desde os primórdios do século XX, Hermano internaliza essa lógica a tal ponto que sua própria jornada se desenrola como um balanço financeiro, culminando em sua velhice, quando ele e sua esposa, D. Rute, são levados a um asilo, e a sensação de que sua "Conta Corrente" está prestes a ser encerrada pelo Supremo Guarda-Livros se torna palpável.
Nesta obra aclamada, o autor de "Presença de Anita" e "Madrugada sem Deus" aborda um tema raramente explorado na ficção brasileira: a velhice nas grandes metrópoles. Contudo, "Partidas Dobradas" transcende a mera discussão sobre idosos; é uma reflexão pungente sobre a coexistência de gerações, onde jovens e velhos compartilham o mesmo espaço, mas com "relógios biológicos" marcando tempos distintos.
Donato tece uma narrativa rica em tipos e situações, explorando não apenas a marginalização da velhice, mas também outras formas de exclusão social e os choques culturais e demográficos inerentes às sociedades em constante transformação. É um convite à introspecção sobre a vida, o tempo e as complexas relações humanas, onde não há culpados, apenas seres em trânsito.
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