
Uma narrativa poderosa sobre memória, guerra e os segredos que moldam uma família. - Jornal de Letras
Em "O Último Avô", Afonso Reis Cabral nos convida a uma profunda viagem pelas camadas da memória e dos segredos familiares. A narrativa se inicia com um ato enigmático e perturbador: o avô, uma figura de poucas palavras e passado misterioso, incendeia um manuscrito no jardim de casa, observando as chamas consumirem anos de histórias e lembranças ocultas. Este gesto radical serve como o ponto de partida para uma busca incessante do neto em compreender a complexa identidade de seu antepassado.
Através dos olhos do narrador, somos transportados para os fragmentos de um passado marcado pela Guerra Colonial, onde o avô, em sua juventude, era um contador de histórias que mesclava a brutalidade do conflito com uma estranha e poética delicadeza. Relatos vívidos de casacos de ouro, crânios em praias e a paisagem selvagem de Cabinda emergem, pintando um retrato de um homem moldado por experiências extremas, onde a violência e a ternura coexistiam.
Cabral tece uma trama envolvente que explora o peso do passado sobre o presente, a natureza multifacetada das relações familiares e a incessante busca pela verdade por trás das fachadas que construímos. É uma meditação sobre como os traumas de uma geração podem ecoar e definir as seguintes, e como a identidade individual é um mosaico de narrativas contadas, silenciadas e, por vezes, deliberadamente apagadas. Uma obra que questiona o que escolhemos preservar e o que preferimos relegar ao esquecimento.
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