
"Uma alegoria brilhante sobre a cegueira humana diante dos conflitos étnicos e o poder da narrativa." - Le Monde
Em "Dossiê H", Ismail Kadaré nos transporta para uma pequena e isolada cidade na Albânia, onde a chegada de dois folcloristas irlandeses, munidos de modernos gravadores, desencadeia uma complexa teia de eventos. O objetivo dos estrangeiros é registrar as antigas epopeias orais da região, buscando paralelos com a Grécia homérica. No entanto, sua presença é recebida com uma mistura de desconfiança e expectativa: os políticos os veem como espiões, as mulheres como uma distração para a monotonia local, e os eslavos, autoproclamados guardiões da epopeia, os consideram traidores, sabotando sua pesquisa.
Kadaré, com sua maestria narrativa, constrói uma poderosa alegoria sobre os conflitos étnicos e culturais que há séculos assolam os Bálcãs. A obra explora a discórdia entre nações cujas línguas e tradições épicas, embora semelhantes, são usadas como armas em um duelo de gigantes. A metáfora central da cegueira — inspirada em Homero e presente em diversos personagens — permeia a narrativa, sugerindo que, em um mundo onde "modos de ver inconciliáveis têm de partilhar o mesmo chão", a capacidade de enxergar a verdade se torna turva.
Com ironia afiada e uma perspicácia reveladora sobre a arte de narrar, "Dossiê H" é uma reflexão profunda sobre a percepção, a história e o poder da oralidade. Uma obra essencial para compreender as tensões humanas e a complexidade das identidades culturais em um cenário de intrigas e mal-entendidos.
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