
Uma obra-prima brutal e poética, que nos confronta com as cicatrizes da injustiça social e a resiliência do espírito humano.
Em 'Degola', Monique Malcher nos imerge na pungente história de Sol, uma mulher cuja infância em uma ocupação de terra na vibrante, mas desigual, Manaus moldou sua percepção do mundo. A Zona Franca, um farol de esperança para muitos migrantes em busca de uma vida melhor, paradoxalmente levou a família de Sol a um barraco em meio ao barro e à precariedade. Neste cenário de violência social e ambiental, Sol, ainda menina, encontrava um estranho consolo ao modelar pequenas criaturas de barro para depois destruí-las, um reflexo da brutalidade que a cercava.
A narrativa explora a profunda diferença entre o sofrimento inerente à condição humana e aquele imposto pela injustiça social. A autora tece uma trama delicada e, ao mesmo tempo, visceral, onde a ternura das memórias se choca com a crueza da realidade. Já adulta, Sol carrega as cicatrizes de um passado que se recusa a ser esquecido, um território ocupado por lembranças e perdas.
Com uma prosa que evoca a força da terra e a resiliência de seus personagens, 'Degola' é um mergulho nas complexidades da identidade, da memória e da busca por reparação. É um romance que questiona o que significa pertencer a um lugar que constantemente te expulsa, e como se constrói um futuro quando o passado insiste em degolar as esperanças.
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