
Uma obra-prima da literatura portuguesa, que disseca a alma de um país em crise com uma profundidade e lirismo inigualáveis.
Em “Auto dos Danados”, António Lobo Antunes nos transporta para o Portugal pós-Revolução dos Cravos, em 1975, através da perspectiva de um psiquiatra que, em seu último dia de consultório antes de uma fuga iminente para a Espanha, reflete sobre o caos e a desilusão que se abateram sobre o país. A narrativa, densa e fragmentada, mergulha nas memórias pessoais e coletivas, revelando as profundas cicatrizes deixadas por um período de intensa turbulência política e social.
Antunes constrói um retrato visceral de uma sociedade em convulsão, onde a euforia inicial da revolução cede lugar a um cenário de vigilância, paranoia e opressão. O protagonista testemunha a desintegração familiar e a fragilidade das relações humanas diante da imposição de um novo regime, que, sob a bandeira de ideologias radicais, impõe novas formas de controle e medo. Parentes são presos, a vida cotidiana é permeada pela incerteza, e a busca por sentido se torna um desafio existencial.
Com uma prosa rica, introspectiva e por vezes cínica, o romance questiona a natureza da memória, da verdade e da identidade em tempos de crise. É uma meditação profunda sobre a condição humana, a loucura e a resiliência do espírito em um mundo que parece ter perdido sua bússola moral. Uma obra essencial para compreender as complexidades da história recente de Portugal e a maestria literária de António Lobo Antunes.
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