
Uma obra precursora e tão original quanto 'Sagarana', antecipando o realismo mágico latino-americano. - José de Souza Martins
“Água Funda” é o aclamado romance de estreia de Ruth Guimarães, lançado em 1946, ano que também marcou a publicação de “Sagarana” de Guimarães Rosa. No entanto, enquanto Rosa explorava a vastidão do sertão, Guimarães mergulha profundamente no universo caipira do Sul de Minas e Vale do Paraíba, recriando com maestria a linguagem e a cultura local que conheceu em sua infância. Sua prosa ágil e fluida é um mosaico de ditos populares, superstições e um fatalismo intrínseco, antecipando elementos do realismo mágico latino-americano de autores como Juan Rulfo e Gabriel García Márquez.
A narrativa entrelaça diferentes tempos e personagens em uma comunidade rural na Serra da Mantiqueira, onde o medo e o invisível moldam o destino. A história de Joca, assombrado pela Mãe de Ouro, e a saga de Sinhá Carolina, que de poderosa fazendeira se torna uma mendiga, ilustram a força de uma maldição que parece consumir a todos. A obra não apenas resgata a riqueza do pensamento caipira, mas também o eleva a um patamar literário, desvendando mistérios e metamorfoses que persistem na cultura popular.
Ruth Guimarães constrói uma obra que é ao mesmo tempo um retrato etnográfico e uma exploração profunda da condição humana diante do destino e do sobrenatural. É um convite a um Brasil rural, onde a lógica do tempo é cíclica e o fantástico se manifesta na própria essência da vida e da linguagem.
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