
Uma descida perturbadora à mente humana, com ecos de Kafka e Dostoiévski. Mutarelli em sua forma mais sombria e brilhante.
Em "A Arte de Produzir Efeito Sem Causa", Lourenço Mutarelli nos arrasta para o abismo da mente de Júnior, um homem que, após largar emprego e casamento por motivos nebulosos, busca refúgio na casa do pai. Sem dinheiro, perspectivas ou propósito, seus dias se arrastam em uma rotina de inércia e apatia, divididos entre o sofá da sala e um bar decadente. A única distração em sua existência vazia é a jovem e atraente inquilina do pai, Bruna, observada secretamente através de um furo no armário, um ato que revela a crescente deterioração de sua sanidade.
A monotonia é quebrada por pacotes anônimos contendo recortes de notícias antigas, incluindo uma sobre o trágico incidente envolvendo William Burroughs. Esse evento catalisador empurra Júnior para uma espiral de reminiscências e uma busca desesperada por objetivos triviais, como a próxima refeição ou o dinheiro para um cigarro. A linha tênue entre a razão e a loucura começa a se desfazer, e Júnior se vê imerso em paranoia e desespero.
Com seu estilo sombrio e opressivo, Mutarelli constrói uma narrativa que evoca as atmosferas de Kafka e Dostoiévski, explorando o tédio existencial, o vazio da vida moderna e a fragilidade da psique humana. Uma obra inquietante que mergulha na decadência moral e psicológica, convidando o leitor a testemunhar a lenta e inevitável descida de Júnior ao abismo.
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