Cartas anônimas começam a chegar à caixa de correio da menina Sofia. Elas trazem perguntas sobre a existência e o entendimento da realidade. Por meio de um thriller emocionante, Gaarder conta a história da filosofia, dos pré-socráticos aos pós-modernos, de maneira acessível a todas as idades.
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Vamos resumir: um coelho branco é tirado de dentro de uma cartola. E porque se trata de um coelho muito grande, este truque leva bilhões de anos para acontecer. Todas as crianças nascem bem na ponta dos finos pêlos do coelho. Por isso elas conseguem se encantar com a impossibilidade do número de mágica a que assistem. Mas conforme vão envelhecendo, elas vão se arrastando cada vez mais para o interior da pelagem do coelho. E ficam por lá. Lá embaixo é tão confortável que elas não ousam mais subir até a ponta dos finos pêlos, lá em cima. Só os filósofos têm ousadia para se lançar nesta jornada rumo aos limites da linguagem e da existência. Alguns deles não chegam a concluí-la, mas outros se agarram com força aos pêlos do coelho e berram para as pessoas que estão lá embaixo, no conforto da pelagem, enchendo a barriga de comida e bebida:
— Senhoras e senhores — gritam eles —, estamos flutuando no espaço! Mas nenhuma das pessoas lá de baixo se interessa pela gritaria dos filósofos.
— Deus do céu! Que caras mais barulhentos! — elas dizem.
E continuam a conversar: será que você poderia me passar a manteiga? Qual a cotação das ações hoje? Qual o preço do tomate? Você ouviu dizer que a Lady Di está grávida de novo?
(Jostein Gaarder)
CAPÍTULO I: O JARDIM DO ÉDEN
...algo teria de surgir a certa altura do nada...
Sofia Amundsen regressava da escola. Percorrera com Jorunn o primeiro trecho do caminho. Tinham conversado sobre robôs. Para Jorunn, o cérebro humano era um computador complexo. Sofia não estava de acordo. Um homem deveria ser algo mais do que uma máquina.
No supermercado, despediram-se. Sofia morava no extremo de um extenso bairro de residências e o caminho que tinha de percorrer para a escola era quase o dobro do de Jorunn. A sua casa parecia ficar no fim do mundo, porque atrás do jardim já não havia casas, apenas floresta.
Seguiu para Klöverveien. No fim da rua, havia uma curva estreita, a que chamavam a “Curva do Capitão”, e onde quase só ao fim-de-semana se viam pessoas.
Era o começo de Maio.
Nalguns jardins, os narcisos formavam coroas de flores sob as árvores de fruto. As bétulas tinham uma fina penugem verde.
Não era estranho que nessa estação do ano tudo começasse a crescer e a desenvolver-se? Porque é que essa massa de plantas verdes podia nascer da terra inanimada logo que o tempo ficava mais quente e os últimos vestígios de neve tinham desaparecido?
Sofia espreitou para a caixa do correio antes de abrir o portão do jardim.
Geralmente havia muita publicidade e alguns envelopes grandes para a sua mãe. Sofia colocava sempre um monte de cartas na mesa da cozinha, indo depois para o quarto fazer os trabalhos de casa.
Para o seu pai chegavam por vezes cartas do banco, mas ele também não era um pai comum. O pai de Sofia era capitão num petroleiro e estava fora quase todo o ano.
Quando regressava a casa por poucas semanas, passeava de chinelos pela casa, e cuidava de Sofia e da mãe de uma forma enternecedora. No entanto, quando estava em viagem, podia parecer muito distante.
Nesse dia havia apenas uma pequena carta na grande caixa do correio, e era para Sofia. “Sofia Amundsen” estava escrito no pequeno envelope.
“Klöverveien 3”. Era tudo, sem remetente. A carta nem sequer tinha selo.
Imediatamente após ter fechado o portão, Sofia abriu o envelope. Encontrou uma pequena folha, que não era maior do que o respectivo envelope. Na folha estava escrito: “quem és tu”?
Mais nada. Não havia assinatura, apenas estas três palavras escritas à mão, seguidas de um grande ponto de interrogação.
Observou uma vez mais o envelope. Sim, a carta era de fato para si, mas quem é que a tinha posto na caixa do correio?
Sofia apressou-se em abrir a porta da casa vermelha.
Como de costume, o gato Sherekan saiu furtivamente dos arbustos, saltou para o patamar e enfiou-se em casa, antes de Sofia fechar a porta.
— Bichano, bichano, bichano!
Se, por algum motivo, a mãe de Sofia estava zangada, dizia que a sua casa parecia uma feira de a